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    Saber Mais - Gripe das Aves


    O primeiro surto de gripe das aves provocada pelo vírus H5N1 ocorreu em Hong Kong, em 1997, mas foi eficazmente controlado através do abate em massa de 1,5 Milhões de aves domésticas. Em 2003, começou uma nova vaga de surtos de gripe aviária que, ao contrário do que aconteceu em 1997 não está a ser eficazmente controlada. O número de aves infectadas com H5N1 tem vindo a aumentar e a sua dispersão geográfica também, atingindo neste momento vários países asiáticos e, mais recentemente, a Europa. Também o número de humanos infectados é bastante superior ao registado em 1997, o que tem gerado a preocupação de organismos internacionais que receiam a transformação desta epizootia (epidemia em animais) numa pandemia. Estas preocupações também são fundamentadas pelas características particulares do vírus H5N1 que é particularmente virulento para as aves domésticas (mata cerca de 100% das galinhas infectadas), assim como para os humanos para os quais as taxas de mortalidade são superiores a 50%. Ao constatar a grande dificuldade de controlar as infecções provocadas pelo vírus Influenzae entre as aves e estando ciente da sua potencial transmissibilidade a humanos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou todas as nações para que se preparassem para uma eventual pandemia (epidemia que atinge proporções mundiais) de gripe provocada pelo vírus H5N1.

    O vírus H5N1, como os outros vírus de gripe, tem como principal reservatório as aves aquáticas migratórias que são, frequentemente, portadoras assintomáticas do vírus. Ao ser eliminado nas fezes, o vírus pode contaminar águas e terrenos que podem servir de veículo para infectar outras aves selvagens ou domésticas. A contaminação dos humanos através destas vias é mais improvável, tal como o reflecte a baixíssima incidência de infecção por H5N1 em humanos (pouco mais de 120 casos, numa região tão populosa com o sudeste asiático). Porquê? Qualquer vírus, para infectar uma célula tem de penetrá-la e alojar-se no seu interior. Para que tal aconteça, é necessário que previamente tenha a capacidade de se ligar a um receptor dessa célula. Ora, o vírus H5N1 dificilmente se liga aos receptores das células humanas, uma vez que é específico para os receptores das aves. É como se o vírus tivesse uma “chave” que apenas servisse na “fechadura” das células das aves, tendo grandes dificuldades em se ligar aos receptores das células humanas.

    Porquê, então, os receios de pandemia? O vírus H5N1, tal como agora se conhece, não representa quaisquer riscos de pandemia dada a sua difícil transmissibilidade a humanos e entre humanos. No entanto, dois cenários hipotéticos justificam estes receios.

    Um cenário possível é o de que ocorra uma recombinação do vírus H5N1 que lhe torne possível passar a infectar facilmente as células humanas e ser transmissível de pessoa a pessoa. Como é que poderá ocorrer essa recombinação? Alguns mamíferos, como os porcos, têm simultaneamente receptores específicos para os vírus das aves e para os vírus humanos. Regressando à analogia da “chave–fechadura”, é como se as células dos porcos tivessem “fechaduras” onde servissem as “chaves” dos vírus humanos e as “chaves” dos vírus das aves.  Ou seja, ambos os vírus conseguem infectar os porcos.

    Isto significa que os vírus dos humanos e os vírus das aves se poderão encontrar nas células dos porcos e trocar segmentos do seu material genético (recombinação). Uma grande parte dessas recombinações será improdutiva originando vírus inviáveis. Mas pode acontecer que uma das recombinações dê origem a um novo vírus que tenha a fracção do H5N1 responsável pela sua virulência, mas com os genes do vírus humano que lhe permita passar a infectar humanos e ser transmissível pessoa a pessoa. Digamos que este novo vírus passaria a ter os genes que lhe permitiriam fazer a “chave” que lhe permitiria entrar nas células humanas. Este vírus, que podia nem ser um H5N1, teria um grande potencial pandémico o que o torna tão temível.

    Um outro cenário, talvez menos provável, é o da ocorrência de uma mutação espontânea no material genético do vírus H5N1, de tal modo que se torne transmissível entre humanos.

    Todo este potencial pandémico tem gerado diversos tipos de preocupação junto das populações, nomeadamente no que respeita à segurança do consumo de carne de aves. Até ao momento, são relativamente poucos, do ponto de vista epidemiológico, os humanos infectados com H5N1, o que torna difícil conhecer com algum pormenor os modos de transmissão do vírus. Mas a maioria dos casos relatados parece ter tido origem no estreito contacto e manipulação de animais infectados, sendo fortes as evidências de que este vírus não se transmite aos humanos através da alimentação. Não existem, por isso, quaisquer motivos para deixar de consumir carne de aves. No entanto, tendo por base o princípio da precaução e dado que há outras doenças das aves como a salmonelose e a campilobacteriose que se transmitem aos humanos através carnes pouco cozinhadas, recomenda-se que só se consuma carne de aves e de ovos que durante o seu processo de cozedura tenham atingido os 70ºC, temperatura que garante a destruição do vírus H5N1, assim como de Salmonella, Campylobacter jejuni e outras bactérias.


    Perspectiva histórica

    Pandemias
    Eventos com potenciais pandémicos que não resultaram em pandemias
    Pandemias eminentes

    412 aC : Referido pela primeira vez por Hipócrates o síndroma causado pelo vírus Influenzae em Perinthus, no nordeste da Grécia, actualmente parte da Turquia.

    212aC: O historiador Livy descreve uma doença infecciosa que afectou o exército romano, que muito provavelmente seriauma gripe.

    1173-74: Primeiro registo de uma epidemia na Europa.

    1580: Primeira descrição completa de uma pandemia gripal

    1789: Uma epidemia de gripe atinge a Nova Inglaterra, Nova Iorque e a Nova Escócia no Outono. A maioria das mortes resulta de uma pneumonia secundária.

    1829: Inicia-se uma epidemia de gripe na Ásia que se estende à Indonésia em Janeiro de 1831. A doença também afecta a Rússia no Inverno de 1830-31 e dissemina-se para o ocidente, atingindo os EUA em Novembro de 1831.

    1836-37: Inicia-se uma epidemia de gripe, na Rússia que se estende a Berlim e Hamburgo. Provoca mais mortes do que as pandemias anteriores.

    1847-48: Pandemia de gripe

    1878: Reconhecida pela primeira vez, em Itália, a gripe aviária.

    1889: Pandemia de gripe, possivelmente provocada pelo vírus H2N2. Esta pandemia marca o início da Epidemiologia Moderna.

    1900: Pandemia possivelmente provocada pelo vírus A(H3N8).

    1918: Pandemia provocada pelo vírus Influenzae A(H1N1), conhecida como Gripe Espanhola ou Pneumónica. Este é um vírus de aves que poderá ter sofrido uma mutação que lhe permitiu circular entre humanos ou, então, ter infectado um hospedeiro adaptativo como os porcos onde terá sofrido uma recombinação que lhe permitiu ser transmissível entre humanos. Matou 20-40 Milhões de pessoas entre 1918 e1920 (mais do que a Iª Guerra Mundial).

    1933: Isolado pela primeira vez um vírus da gripe humana.

    Fevereiro 1957: Gripe Asiática (pandemia) provocada pelo vírus A(H2N2) começa no sudeste da China, com origem provável em Vladivostok, na Rússia. 1-4 Milhões de mortos, sobretudo crianças e idosos. Este é um vírus das aves que poderá ter recombinado com o gene de vírus humanos em porcos (Suzuki, 2005). Globalmente, afectou 10-35% da população, embora tenha matado menos do que a Gripe Espanhola.

    1961: Isolado pela primeira vez o vírus A(H5N1). Em estorninhos, na África do Sul.

    1968: Gripe de Hong Kong provocada pelos vírus A(H3N2) e A(H1N1). 1-4 Milhões mortos, sobretudo crianças e idosos.

    1976: Surto com novo vírus da gripe suína (H1N1) afecta soldados de New Jersey, nos EUA. Os especialistas alertam para o perigo de uma pandemia, o que resultou na vacinação de 40 Milhões de americanos. Morreu 1 pessoa e a pandemia não se concretizou.

    Maio 1977: O vírus A(H1N1) foi isolado no nordeste da China e disseminou-se rapidamente por todo o mundo. Uma vez que apenas afectou uma faixa da população, crianças e jovens adultos (menos de 23 anos), este surto não foi considerado uma verdadeira pandemia.

    1986: Vírus da gripe suína (H1N1), de fonte aviária resulta numa pneumonia grave.

    1988: Vírus da gripe suína (H1N1), nos EUA. Provoca a morte de uma mulher grávida que tinha contactado com porcos doentes.

    1993: Vírus da gripe suína (H3N2) recombinado com vírus da gripe aviária (H1N1). Provoca doença ligeira em 2 crianças.

    Maio 1997: Isolado pela primeira vez o vírus Influenzae A(H5N1) de humanos em criança falecida em Hong Kong. Neste ano registam-se, em Hong Kong, 18 casos de infecção com este vírus da gripe aviária em humanos, que resultaram em 6 mortes. Este surto é controlado através do abate em massa de 1,5 Milhões de aves domésticas. A transmissão deste vírus entre humanos parece não ocorrer.

    1999: Vírus da gripe da codorniz (H9N2) provoca dois casos ligeiros de gripe em humanos.

    2003: Vírus da gripe aviária A(H5N1) em Hong Kong provoca directamente uma morte, além de outra em que um doente infectado com este vírus acaba por morrer de pneumonia.

    2003: Vírus da gripe aviária (H7N7) provoca a morte de uma pessoa e mais de 80 conjuntivites na Holanda.

    2003: Vírus da gripe aviária A(H5N1) em humanos provoca uma morte em Guangdong.

    2003: Vírus da gripe aviária (H9N2), em Hong Kong, provoca um caso ligeiro de gripe em humanos.

    2003: Vírus da gripe aviária (H7N2) provoca uma pneumonia numa pessoa infectada com o HIV, em Nova Iorque.

    2004: Vírus da gripe aviária (H7N3) provoca dois casos de conjuntivite no Canadá.

    2004: Vírus da gripe aviária A(H5N1)   em humanos no Vietname e na Tailândia (32 mortes).

    2004: Surtos de gripe aviária A(H5N1) em aves domésticas de nove países asiáticos: Cambodja, Coreia do Sul, China, Indonésia, Japão, Laos, Malásia, Tailândia e Vietname.

    2005: Vírus da gripe aviária A(H5N1) em humanos no Vietname e Cambodja infecta 64 pessoas, 22 das quais acabam por morrer.

    2005: Vírus da gripe aviária A(H5N1) em humanos na Tailândia (1 caso / 1 morte)

    Fevereiro 2006: Surgem pela primeira vez aves selvagens infectadas com o vírus da gripe aviária A(H5N1) em países membros da União Europeia. Em meados do mês, já existem casos relatados na Grécia, Itália, Eslovénia, Áustria e Alemanha.

    21 Fevereiro 2006 : Confirmada a presença do ´vírus A (H5N1) na Hungria.

    22 Fevereiro 2006: encontradas pela primeira vez em solo europeu, na cidade austríaca de Graz, aves domésticas infectadas com o vírus A(H5N1). Duas galinhas aparentemente infectadas por um cisne doente.

    23 Fevereiro 2006: A Eslováquia junta-se à lista de países membros da UE com casos registados de A(H5N1).

    25 Fevereiro 2006: Morrem subitamente 400 perus numa exploração em Ain, no leste de França , suspeitando-se de que seja devida ao vírus A(H5N1). Neste dia, esta hipótese é confirmada.

    28 Fevereiro 2006: É anunciada a morte, na Alemanha, de um gato infectado com o vírus A(H5N1), presumivelmente por ter comido uma ave contaminada. É o primeiro caso conhecido de transmissão do vírus da gripe das aves a mamíferos em território Europeu.

    Características gerais dos vírus

    Os vírus são microrganismos com uma organização acelular, que só se conseguem reproduzir no interior de uma célula viva. Podem existir em duas fases distintas, uma extracelular e uma intracelular. Na fase extracelular (virião ou partícula viral), metabolicamente inerte, são constituídos por uma capa proteica, designada cápside, que contém, no seu interior, uma ou mais moléculas de DNA ou RNA (ácidos nucleicos) em cadeia simples ou dupla. Nalguns vírus existe exteriormente à cápside um envelope , que é uma camada membranosa constituída por uma bicamada lipídica que pode ou não ter proteínas embebidas. Após a infecção da célula, os vírus encontram-se na fase intracelular em que ocorre a sua replicação, e são compostos exclusivamente por ácidos nucleicos replicativos.

    No processo de reprodução dos vírus podem-se considerar várias etapas:

    1- Adsorção dos viriões
    Ocorre uma colisão aleatória com um receptor da membrana plasmática que é, invariavelmente, uma proteína necessária à célula (exº receptor de hormonas).
    2- Penetração
    Existem diversos mecanismos de entrada dos vírus no interior das células. No caso da maioria dos vírus com envelope (que é o caso dos vírus da gripe), o envelope funde-se com a membrana da célula hospedeira, e entra por endocitose, dando origem à formação de vesículas com capa.
    3- Replicação e expressão dos ácidos nucleicos
    4- Síntese e agregação das cápsides
    5- Libertação dos vírus

    No caso dos vírus com envelope, ocorre a integração das proteínas na membrana celular, formam-se os envelopes, e libertam-se os viriões

    Vírus da Gripe

    Conhecem-se três tipos de vírus da gripe, que se designam por A, B e C. Cada um destes tipos é dividido em subtipos, estabelecidos de acordo a hemoglutinina (H) e a neuraminidase (N) que são proteínas de superfície de que se conhecem 16 e 9 subtipos, respectivamente. Estas proteínas podem estar combinadas de diversos modos resultando em vários subtipos de vírus. Por exemplo, para os vírus Influenzae A, que estão associados às gripes mais graves nos humanos, conhecem-se os subtipos H3N2 (gripe humana comum), H7N7 (gripe aviária de 2003, na Holanda), H5N2 e H5N1 (a gripe aviária que actualmente nos preocupa e que já afectou alguns humanos). Nas aves aquáticas, que são o reservatório de todos os subtipos de vírus Influenzae A conhecidos, encontram-se variadas as combinações de H e N, enquanto que nos humanos com gripe só se encontram os subtipos H1, H2 e H3 e N1 e N2.

    Os vírus Influenzae A também já foram isolados de animais como porcos, cavalos, mamíferos marinhos, aves aquáticas selvagens (nomeadamente patos), e aves domésticas (Suzuki, 2005). O tipo B também tem originado epidemias mais ou menos extensas e o tipo C tem estado associado a casos esporádicos e a surtos localizados.

    É sabido que todos os anos ocorrem alterações dos vírus da gripe e que todos os anos surgem novas vacinas produzidas de acordo com as orientações que a OMS dá em Fevereiro sobre a estirpe a utilizar para prevenir as gripes do Inverno seguinte. Estas permanentes alterações dos vírus devem-se aos erros cometidos pela RNA polimerase (enzima responsável pela “multiplicação” do RNA) e à permanente pressão selectiva exercida pelo sistema imunitário do hospedeiro, que se traduzem num acumular de mutações e em alterações da antigenicidade das proteínas de superfície (i.e, a sua capacidade de estimular a formação de anticorpos). Este fenómeno, designado Drift antigénico, ocorre regularmente e é responsável pelas epidemias de gripe periódicas.

    Um outro fenómeno, o Shift antigénico, ocorre irregularmente mas provoca alterações muito mais drásticas dos vírus, que significam que a maior parte da população não tem anticorpos eficazes para os combater, podendo resultar em pandemias mais ou menos extensas. Este fenómeno é consequência da plasticidade notável do genoma dos vírus Influenzae que lhes é conferida pela sua segmentação em oito moléculas de RNA separadas. Esta segmentação facilita a ocorrência de rearranjos entre segmentos de RNA quando o hospedeiro está co-infectado com dois vírus de influenza diferentes (The WHO Global Influenza Program Surveillance Network, 2005). Assim se, por exemplo, um ser humano (ou outro mamífero) estiver simultaneamente infectado por um vírus humano H3N2 e um vírus aviário H5N1, pode ocorrer uma recombinação tal que se forme, por exemplo, um vírus H5N2. Este novo vírus poderá vir a ser eficientemente transmitido de pessoa a pessoa uma vez que uma maioria dos segmentos dos genes provém de um vírus humano (Yuen e Wong, 2005).  Os recentes receios de uma nova pandemia de gripe decorrem do receio de que este fenómeno ocorra no vírus H5N1.

    Influenzae A(H5N1)

    O vírus da gripe aviária Influenzae A(H5N1), que nos últimos anos infectou alguns humanos, é um vírus de RNA em cadeia simples com envelope, tal como os outros vírus da gripe.  É destruído pelo calor (56ºC, 3 horas; 60ºC, 30 minutos) e por alguns desinfectantes (exº compostos de formalina ou iodo), mas sobrevive a temperaturas baixas (22ºC, 4 dias; 0ºC, mais de 30 dias). O seu RNA encontra-se segmentado em oito fragmentos que codificam 10 proteínas.

    Os vírus do tipo A, que é o caso do H5N1, têm um envelope com três proteínas -  hemaglutinina (H), neuraminidase (N) e proteína M2 –, todas elas com relevância médica, pois são alvos dos anticorpos dos hospedeiros ou de medicamentos antivirais como o oseltamivir (Tamiflu) ou o zanamivir (Relenza ).

    A hemaglutinina (H) é uma glicoproteína que forma “espinhos” na superfície do vírus que permitem que o virião se ligue aos receptores das células do aparelho respiratório do hospedeiro. Esta ligação é seguida da fusão do envelope do vírus com a membrana celular que conduz à entrada do vírus no interior da célula. Os receptores das aves (alfa-2,3) e dos humanos (alfa-2,6) são de tipos diferentes, o que justifica que dificilmente os vírus de aves infectem os humanos e vice-versa. Mas o epitélio respiratório dos porcos possui os dois tipos de receptores (alfa-2,3 e alfa-2,6), o que significa que podem ser simultaneamente infectados pelo vírus da gripe de humanos e pelo vírus da gripe aviária. Como no sudeste asiático os porcos vivem em proximidade das aves e dos humanos, poderão servir de “ponto de encontro” entre estes dois tipos de vírus de tal modo que a recombinação que poderá tornar possível a transmissão dos vírus entre humanos poderá vir a ocorrer (Yuen e Wong, 2005). Enquanto que nas aves a hemoglutinina se liga preferencialmente a receptores do epitélio respiratório e alimentar, nos humanos liga-se ao epitélio respiratório e à conjuntiva.

    A neuraminidase forma estruturas semelhantes a botões na superfície das partículas virais e cataliza a libertação dos vírus das células infectadas, permitindo a sua dispersão.

    A proteína M2 é transmembranar (atravessa o envelope do vírus) e forma um canal iónico necessário ao processo de uncoating (remoção da cápside e libertação do RNA) que precede a expressão genética viral.
    Desde 1997, estudos do vírus A (H5N1) indicam que continua a evoluir, tendo sofrido alterações que podem afectar a sua antigenicidade (i.e, a sua capacidade de estimular a formação de anticorpos) ou a sua transmissibilidade. Análises filogenéticas (que reflectem o parentesco dos vírus) indicam que o vírus evoluiu em duas classes distintas. A classe 1 agrupa os isolados de humanos e de aves do Vietname, Tailândia e Cambodja e de aves de Laos e da Malásia. A classe 2 agrupa isolados de vírus de aves da China, Indonésia, Japão e Coreia do Sul. Recentemente, um terceiro grupo surgiu no nordeste do Vietname e na Tailândia (The Writing Committee of the WHO Consultation on Human Influenza A/H5, 2005, The WHO Global Influenza Program Surveillance Network, 2005).

    A maioria dos vírus A(H5N1) isolados recentemente de humanos é antigenicamente homogénea mas diferente dos vírus aviários que circulavam antes dos finais de 2003 (The WHO Global Influenza Program Surveillance Network, 2005). Não existem, no entanto, quaisquer evidências de que os vírus isolados em 2004-2005 tenham sido alvo de quaisquer recombinações que os tenham dotado de genes provenientes de outros organismos (nomeadamente mamíferos) que não as aves. No entanto, é fundamental manter a vigilância contínua, uma vez que a recombinação genética pode facilitar a evolução dos vírus, quer no sentido de um aumento da virulência quer no sentido da ultrapassagem da barreira das espécies (The WHO Global Influenza Program Surveillance Network, 2005). A possibilidade de poder vir a ocorrer o Shift antigénico, associada à elevada mortalidade dos doentes com pneumonia provocada pelo vírus A(H5N1), são a causa dos receios de pandemia que actualmente se discutem. Também existe a possibilidade de estes vírus sofrerem mutações no interior das células humanas, de tal modo que se possam tornar transmissíveis de pessoa a pessoa (Yuen e Wong, 2005).

    Transmissão do vírus A(H5N1)

    O vírus da gripe aviária Influenzae A(H5N1) tem como principal reservatório as aves aquáticas migratórias, em particular os patos e gansos, embora já tenha sido isolado de outras aves como codornizes, corvos e galinhas, para as quais é geralmente letal. Nas aves, a transmissão é fecal-oral, através do abastecimento de água. Assim, durante as suas migrações, uma ave aquática, como os patos selvagens, pode infectar com o vírus que elimina nas fezes várias outras aves em contacto com as águas contaminadas. Pensa-se que a transmissão inicial deste vírus para os mamíferos também possa ter ocorrido por contaminação fecal da água.

    As aves domésticas terão transmitido o vírus aos humanos, dos quais foi pela primeira vez isolado em 1997, em Hong Kong. Esta transmissão terá ocorrido maioritariamente através do contacto directo com estas aves, nomeadamente galinhas para as quais se observa uma mortalidade de cerca de 100%. De acordo com o The Writing Committee of the World Health Organization Consultation on Human Influenza A/H5 (2005), a operação de depenar e preparar animais doentes, o manuseamento de galos usados na “luta de galos”, as brincadeiras com aves domésticas, em particular patos infectados, e o consumo de sangue de pato ou, possivelmente, de aves domésticas pouco cozinhadas terão estado implicados nessa transmissão. O vírus tem sido encontrado no sangue e nas fezes dos pacientes. Nesta fase do conhecimento, é difícil avaliar se o sangue e as fezes podem transmitir a infecção (The Writing Committee of the WHO Consultation on Human Influenza A/H5, 2005).

    Embora estejam referidos alguns casos em que a transmissão entre humanos possa ter ocorrido (The Writing Committee of the WHO Consultation on Human Influenza A/H5, 2005), nomeadamente num grupo familiar na Tailândia (The WHO Global Influenza Program Surveillance Network, 2005), este modo de transmissão é muito improvável, uma vez que H5N1 é um vírus específico de algumas espécies de aves estando “programado” para se transmitir apenas entre essas espécies. No entanto, a possibilidade de poder vir a ocorrer uma recombinação do material genético do vírus da gripe humana (transmissível entre humanos) com o do vírus A(H5N1), de tal modo que surja uma nova estirpe de A(H5N1) susceptível de se transmitir de humano a humano, é uma fonte de preocupação. Esta nova estirpe poder-se-ia disseminar com muito maior facilidade, aumentando o risco de ocorrência de uma pandemia.

    Este vírus também já foi encontrado em felinos, como os tigres alimentados por carcaças de aves infectadas. Também existem evidências da transmissão tigre a tigre num Jardim Zoológico na Tailândia (The WHO Global Influenza Program Surveillance Network, 2005).

    Gripe humana provocada pelo vírus A(H5N1)

    No período inicial, a infecção por A(H5N1) não é facilmente distinguível de outros tipos de pneumonia, gastroenterite aguda, ou encefalite aguda. Nesta fase, é fundamental saber o historial do doente, nomeadamente no que respeita às suas viagens recentes e à sua actividade profissional (profissionais hospitalares, de laboratório ou pessoas que trabalhem com aves constituem grupos de risco)  (Yuen e Wong, 2005).

    O período de incubação da infecção por A(H5N1) em humanos é de cerca de dois a quatro dias, embora se conheçam casos que vão até aos oito dias. Os sintomas iniciais da doença são febre alta (tipicamente superior a 38ºC) acompanhada de rinite aguda, conjuntivite, faringite ou pneumonia. Nalguns casos, também foram referidos diarreia, vómitos, dores abdominais, sangramento do nariz ou encefalite. Os sintomas podem evoluir com falhas respiratórias progressivas que podem resultar em morte.

    Tratamento

    Embora a gripe aviária seja uma doença tratável do ponto de vista antiviral, a eficácia da terapêutica dos antivirais actualmente disponíveis parece depender da sua utilização precoce, quando surgem os primeiros sintomas. Isto constitui um entrave nos países em desenvolvimento, uma vez que dificilmente as pessoas conseguem ter acesso a um hospital nas primeiras 48 horas (Yuen e Wong, 2005).

    Aos pacientes suspeitos de infecção pelo vírus A(H5N1) devem ser imediatamente administrados inibidores da neuraminidase (impedem que os vírus se libertem das células infectadas, evitando, assim, que vão infectar novas células). Este vírus é sensível, in vitro, ao oseltamivir (Tamiflu) e ao zanamivir (Relenza ). Estudos em murídeos sugerem que a estirpe isolada em 2004 requer maiores doses de oseltamivir e uma administração mais prolongada (The Writing Committee of the WHO Consultation on Human Influenza A/H5, 2005). São conhecidos casos de resistência ao oseltamivir, nomeadamente em crianças.

    O tratamento precoce é benéfico, embora também se considere apropriado o tratamento numa fase mais desenvolvida da doença.

    A aspirina deve ser evitada, principalmente em crianças e adolescentes, de modo a prevenir o síndroma de Reye (desordem muito rara que danifica muitas partes do corpo, especialmente o cérebro e o fígado. Tipicamente, ocorre alguns dias após a criança começar a recuperação de uma infecção viral, como a gripe ou a varicela, ou quando a criança ainda está doente. Parece estar relacionado com uma resposta anormal à aspirina, ou produtos relacionados).

    Ao contrário dos isolados de 1997, os isolados recentes são muito resistentes a inibidores da proteína M2 (amantadina e rimantadina), envolvida no processo de uncoating (remoção da cápside e libertação do RNA) dos vírus.

    Também os corticosteróis têm sido frequentemente utilizados no tratamento desta gripe, sem que os seus reais efeitos sejam claros.

    Assim, os agentes que podem vir a constituir anti-virais eficazes incluem o zanamivir, peramivir, inibidores da neuraminidase tópicos, ribavirina e, possivelmente, o interferão alfa (The Writing Committee of the WHO Consultation on Human Influenza A/H5, 2005).

    Prevenção da contaminação

    Os vírus Influenzae do tipo A existem no reservatório das aves aquáticas o que torna a gripe numa doença que não é susceptível de erradicação. Restam, então, a prevenção e o controlo.

    Actualmente, não está comercialmente disponível qualquer vacina específica para o vírus A(H5N1). Em laboratório, têm sido produzidos vírus não virulentos (que não se multiplicam) obtidos a partir de isolados de diversos vírus A(H5), alguns dos quais podem vir a ser bons candidatos a uma vacina anti A(H5N1) (The Writing Committee of the WHO Consultation on Human Influenza A/H5, 2005). Alguns destes candidatos já foram disponibilizados às indústrias produtoras de vacinas para que possam produzir “lotes piloto” para ensaios clínicos de modo a que estejam disponíveis para serem produzidas em grande escala, caso essa necessidade surja (The WHO Global Influenza Program Surveillance Network, 2005). De qualquer modo, há que ter em conta que actualmente a produção de uma nova vacina demora 4-6 meses. Enquanto isso, caso ocorra uma pandemia, é necessário recorrer aos medicamentos antivirais.

    Nos meios hospitalares, a eficiência da protecção por utilização de máscaras cirúrgicas, mesmo que múltiplas, é muito inferior à das máscaras N-95. A administração de oseltamivir (Tamiflu ) em pessoas que possam ter sido fonte de exposição também é indicada.

    Embora o risco de transmissão secundária (pessoa a pessoa) seja baixo actualmente, é prudente que pessoas que tenham estado em contacto com pessoas infectadas fiquem em quarentena durante uma semana após o último contacto com a pessoa infectada.

    O que leva a que se tema uma pandemia? (OMS)

    A conjugação de diversos factores leva a que se tema uma pandemia. Entre eles encontram-se:

    1. Uma dispersão geográfica sem precedentes (China, Cambodja, Indonésia, Japão, Kazaquistão, Coreia do Sul, Laos, Malásia, Mongólia, Federação Russa, Tailândia, Vietname)
    2. Estirpe de vírus de gripe aviária com elevada patogenicidade: aproximadamente 100% de morte nas galinhas
    3. Aumentou a gama de mamíferos infectados (estendeu-se aos felinos)
    4. Patos domésticos saudáveis excretam elevadas quantidades de vírus (fezes e respiração)
    5. Número de humanos infectados com H5N1 sem precedentes (desde Dezembro de 2003, 112 casos em 5 países, 57 dos quais fatais)

    Casos de gripe das aves em humanos desde 2003 até 29 de Maio de 2006
    (Dados da União Europeia e da OMS)

     

    País Vírus Nº Casos Nº Mortes
    Azarbeijão H5N1 8 5
    Camboja H5N1 6 6
    Canadá H7 2 0
    China H5N1 18 12
    Djibouti H5N1 1 0
    Egipto H5N1 14 6
    Holanda H7N7 89 1
    Hong Kong H9N7 2 1
    Indonésia H5N1 48 36
    Tailândia H5N1 22 14
    Turquia H5N1 12 4
    Vietnam H5N1 93 42


    Bibliografia

    Webster RG and Hulse DJ. 2004. Microbial adaptation and change: avian influenza. Rev.sci. tech. Off. Int. Epiz. 23, 453-465.
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    Endereços da internet úteis:

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    Direcção-Geral de Saúde http://www.dgsaude.pt/
    Direcção-Geral de Veterinária http://www.dgv.min-agricultura.pt/wps/portal
    OMS – Organização Mundial de Saúde - http://www.who.int/csr/disease/avian_influenza/en/
    Dentro da OMS-  FAQ - http://www.who.int/csr/disease/avian_influenza/avian_faqs/en/index.html
    FAO – Página sobre gripe aviária, com os mapas dos focos mais recentes http://www.fao.org/ag/againfo/subjects/en/health/diseases-cards/special_avian.html
    OIE – Organização Mundial para a Saúde Animal, métodos de diagnóstico e controlo da gripe nas aves
     http://www.oie.int/eng/AVIAN_INFLUENZA/home.htm
    “Infecção por Gripe aviária A (H5N1) em humanos” -Avian Influenza A (H5N1) Infection in Humans
    Artigo da OMS no New England Journal of Medicine – Características do vírus H5N1, transmissão ao humano, sinais clínicos.  http://content.nejm.org/cgi/content/full/353/13/1374
    Evolution of H5N1 Avian Influenza Viruses inAsia
    Artigo que descreve a epidemia de gripe aviária na Asia, Emerging Infectious Diseases
    http://www.cdc.gov/ncidod/EID/vol11no10/05-0644.htm
    Isolation of drug-resistant H5N1 virus
    Nature  http://www.nature.com/nature/journal/v437/n7062/pdf/4371108a.pd   - Characterization of the 1918 influenza virus polymerase genes
    Nature  - Caracterização do virus responsável (H1N1) pela pandemia de 1918 (Gripe Espanhola)http://www.nature.com/nature/journal/v437/n7060/full/nature04230.html

     

     

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